Dizem os mais antigos que no velho Clube Sorocaba, construído em madeira, que pegou fogo, onde, hoje, está instalada a escola do Senai, existiu o primeiro cinema da região de Sorocaba. Contam eles que bem no começo, as pessoas levavam suas cadeiras de casa para assistir confortavelmente à películas exibidas no saudoso clube.
Pois, no dia 28 de novembro de 2019, relembrando os velhos tempos, tive o prazer de participar de um evento cinematográfico na “terra do não-tem-mais”. A Câmara Municipal de Iperó deixou, momentaneamente, de ser um plenário legislativo para se transformar em uma sala de cinema, para exibir, gratuitamente, o documentário “A maravilha do Século”, em um evento organizado e realizado pela Secretaria de Meio Rural, Ambiente e Turismo. O documentário da diretora Márcia Paraíso, realizado com o patrocínio público do estado de Santa Catarina, baseia-se em tese de doutorado e conta a história de Giovanni Maria de Agostini, mais conhecido como São João Maria, um católico italiano que peregrinou por vários países do continente americano, vivendo como um eremita em grutas naturais das montanhas das regiões por onde passava, dentre elas, a gruta do Morro de Ipanema, em Iperó-SP.

Sua história é muito peculiar. Influenciado pela ordem católica franciscana, o monge João Maria fez uma extensa peregrinação — passando por vários estados brasileiros e países americanos, tais como Venezuela, Peru, Bolívia, Cuba, Estados Unidos — e, por onde passou, comoveu e ajudou as populações campesinas e incomodou as elites proprietárias de terra com sua forma de vida, sabedoria, espiritualidade e conduta.
Uma passagem de sua história e de suas andanças que vale a pena ressaltar é sua defesa ao acesso e à manutenção da terra para as populações campesinas no Estado de Santa Catarina. Inclusive, segundo os relatos, ele não só profetizou como orientou as populações campesinas para a resistência na Guerra do Contestado (1912 – 1916): uma guerra dos grandes proprietários de terra e do Estado contra as populações campesinas, com o objetivo de passar uma estrada de ferro nas terras daquela população. (Obs.: este é um modo muito recorrente no processo de desenvolvimento e expansão do capitalismo e da chamada modernização, que se repete em vários países do mundo)
Afora esses importantes detalhes históricos, sociais e econômicos, quero chamar a atenção para alguns aspectos do evento. O primeiro deles é que, de um ponto de vista muito subjetivo, de todas as vezes que estive na Câmara Legislativa de Iperó, acompanhando as sessões ordinárias, esta foi a primeira vez que me senti verdadeiramente confortável. A apropriação deste espaço público para outro fim que não o de praxe me agradou muito mais do que os quase prolixos ritos da atividade legislativa. Isso me fez pensar como temos carência de espaços públicos para fins culturais em Iperó, tais como um anfiteatro ou um auditório. Vale lembrar que o acesso ao cinema foi tema da redação do Enem daquele ano.
Outro ponto é que, infelizmente, talvez pela péssima divulgação, dentre outros fatores, o público presente foi muito pequeno. Eu mesmo só fiquei sabendo por convite de uma amiga. No entanto, ao que me consta, nem o pessoal da secretaria da Educação e Cultura, nem os vereadores, sendo os tradicionais ocupantes daquela casa, marcaram presença. Do meu ponto de vista, um aspecto emblemático do costumeira e apedeutico comportamento de nossos representantes.
Da população em geral não se pode esperar motivação espontânea e um interesse nato pela história Iperoense — tal interesse é fruto de um processo educacional, precisa ser cultivado nas escolas. Mas ao menos dos agentes públicos, principalmente dos agentes da educação e da cultura, dever-se-ia esperar que isso não fosse necessário.
Apesar disso, gostaria de parabenizar os responsáveis pelo evento. Bom seria se este tipo de iniciativa se multiplicasse cada vez mais para que não precisassemos dizer com saudosismo sobre as coisas boas da cidade: tinha, não tem mais.
Apesar disso, gostaria de parabenizar os responsáveis pelo evento. Bom seria se este tipo de iniciativa se multiplicasse cada vez mais para que não precisássemos dizer com saudosismo sobre as coisas boas da cidade: tinha, não tem mais.
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