Escrevo mais uma vez sobre um assunto que me agrada bastante: cinema. Doutor Estranho é para mim, de longe, a produção mais sedutora dos filmes de super-herói da Marvel. Não sou especialista na área do cinema, nem em histórias em quadrinho, mas apontarei, contudo, aspectos sociológicos acerca do filme, do roteiro, do enredo e da trama, a partir de minhas impressões pessoais como sociólogo e como um grande entusiasta dos filmes da Marvel.
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Antes de começar, quero admitir que este filme me agradou mais que as outras histórias já produzidas pela Marvel, como Home de Ferro, Thor entre outros. Para iniciar, quero apontar primeiramente os elementos que considero clichê no filme. Em síntese, o roteiro é um baita cliche, trata-se de um super-herói que salva a terra e a humanidade de um inimigo extraterrestre. Além desse, como sempre, há um núcleo romântico entre a personagem principal (Doutor Estranho) e sua colega de trabalho (Christine Palmer) e algumas dificuldades da trama que impedem os dois de ficarem juntos.
Contudo, há outros aspectos muito recorrentes, só que mais sutis, quais sejam: a personagem principal é um típico americano de sucesso – um homem branco, caucasiano, médico bem sucedido, especialista em cirurgias de alta complexidade, que sempre busca casos raros para aumentar sua reputação e seu prestígio, extremamente egocêntrico, arrogante e pedante, com a típica moral do perfil que ele encerra. Além disso, ele é apresentado como um representante, por excelência, da ciência, portador do conhecimento científico (ocidental) que subjuga as outras formas de conhecimento não ocidentais, até ter uma experiência de epifania com os conhecimentos místicos e sagrados do oriente.
A história transcorre com o acidente de carro sofrido por Stephen Strange (Doutor Estranho), fato que o impossibilita de exercer sua profissão, levando-o a consumir toda sua fortuna com tentativas desesperadas para se reabilitar. Sem saída e desesperado, ele procura ajuda em um templo Nepales onde lhe é oferecida cura espiritual em oposição à cura científica ocidental. Este aspecto não é novo, diga-se de passagem, é bastante usado nos filmes orientais, principalmente os que abordam a cultura chinesa, bem como em alguns clássicos americanos.
Já as personagens coadjuvantes são representadas por tipos sociais inferiorizados nas sociedades ocidentais. A personagem que conduz o Dr. Estranho ao templo e que irá lutar ao seu lado é um homem negro, que conheceu o templo por motivos parecidos com os do Stephen.
Há outra personagem que tem um papel coadjuvante e que porta características inferiorizadas pela cultura ocidental: trata-se do guardião da biblioteca do templo, que é representado por um asiático. Repare que os personagens secundários quase sempre são representados por negros, asiáticos, latinos, indígenas, etc.
Por outro lado, a personagem que conduziu o Dr. Estranho ao conhecimento das artes místicas, a quem ficou o papel de mestra anciã que o treina e é a última guardiã na terra dos templos de proteção deste mundo contra as forças malignas extraterrestres e extradimensionais, embora despida de vaidades (característica que se apreendo pelo fato dela ser careca), é uma mulher branca também de aspecto caucasiano.
A parte que mais me soou interessante, apesar de não chegar a ser novidade, foi o conteúdo filosófico apresentado pelo roteiro. A história aborda questões sobre as categorias filosóficas Espaço e Tempo, a concepção astrofísica e mística de multidimensionalidade do universo, bem como sobre questões relacionadas à Natureza, à Vida, à Morte, à Misticidade, à Religião e a Existência.
Esses aspectos com certeza não devem ter sido facilmente digeridos por aqueles que estão acostumados com filmes de ação como puro entretenimento. É um roteiro bastante interessante neste ponto, que deve ter feito muitos espectadores pensarem um bocado.
Um aspecto empolgante da trama, embora também seja um cliche, é a superação, no decorrer do enredo, que a personagem principal atinge e o direcionamento que a história dá a ela. Esse transcorrer da história da personagem, típico dos filmes de herói, traz aquilo que, pra mim, é o climax desse seguimento: o debate em torno das responsabilidades das ações humanas, da responsabilidade que a personagem tem devido aos talentos ou dádivas que recebeu e a necessidade que tem de compreendê-las e escolher como usá-las. É em relação a essa problemática que se dá o desfecho de superação da personagem principal.
Outro aspecto que me chamou a atenção está relacionado ao objetivo central do Doutor Estranho, qual seja, o de defender o planeta Terra contra o Dormammu.
Dormammu, no filme, é um conquistador e devorador de mundos, que habita a dimensão negra, e a Terra é o planeta mais cobiçado por ele. Percebi, tomando como referência as reflexões de Ailton Krenak, que podemos considerar Dormammu, na verdade, como um dos alter egos das sociedades ocidentais. Dormammu, o conquistador e devorador de mundo, não é uma alteridade, ou seja, aquele outro forasteiro, que não faz parte do nosso grupo e quer nos prejudicar, mas é a projeção no outro da imagem feia, obscura e tervosa dos próprios ocidentais: os brancos devoradores de mundo. Podemos projetar essa reflexão e esse embate como uma luta entre aqueles que buscam proteger o planeta e a possibilidade da vida dentro dele e aqueles que tentam destruí-lo e buscam outros mundos para explorar e destruir. Não é curioso que vários países e instituições do ocidente vêm já há alguns anos tentando colonizar outros planetas? Se estamos de acordo, cabe mais uma pergunta: quem é de fato o tal do Dormammu?
Neste caso, o devorador de planetas não surgirá de uma dimensão negra fora da Terra, mas de nossa própria realidade, ou seja, de nosso próprio paradigma cultural ocidental. Afinal, não é verdade que tentamos desenvolver tecnologias para habitar outros planetas quando este não puder mais nos abrigar?
E não é bastante significativo que Stephen Strange tenha trocado sua antiga vida de médico bem sucedido, com todas as benesses que esta posição lhe dava (na cultura ocidental) por uma vida altruísta, que se encontra numa cultura distinta e distante da sua, para encontrar ai seu destino de herói? Pensemos…
Talvez eu escreva sobre o segundo filme.
Agradeço se você leu até aqui.






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