Não sei dizer ao certo quantas eram as horas quando ele viera. Provavelmente, já passava das duas da madrugada. Como um amigo, que não quer atrapalhar o sono sagrado dos diletantes, chegara devagarinho, sem avisar, sem pedir licença, dispensando as formalidades. Adentrara a sala e fora direto ao quarto. Deslocando-se pelos cantos, averiguando se havia moradores, não me viu. Suspeitava desde sempre, por instinto ou costume, que não seria bem recebido.
O ambiente era rico em possibilidades. Pelas paredes, espalhavam-se estantes e livros dominando e dirigindo o espaço. No centro, uma escrivaninha levemente surrada, velha companheira de batalha do respeitado anfitrião, adornada de uma velha máquina informacional, disputava com os presunçosos autores seu lugar de importância naquele precioso panteão.
Dali surgia toda sua inspiração para enfrentar os desafios da vida. Tinha sempre à mão grandes e respeitados conselheiros. Muitos já do outro lado da ponte. Outros nem tão distantes assim. No canto, de frente para a porta, uma humilde cama de solteiro desconfigurava, quase que por acidente, a atmosfera altiva do santuário dos letrados.
O hóspede repousava na cama do panteão. Naturalmente desconfiado, dormia sono leve de vigília, como se suspeitasse poder ser surpreendido por algo a qualquer momento. Assombro típico de suas neuroses. O amigo, em verdade, não veio com mau propósito. Pé-por-pé a investigar, a farejar, tentou, ao máximo, evitar ser percebido, mas não logrou êxito. Deixou-nos aturdidos. Primeiro a mim, que havia recebido permissão de estar ali, mas não havia convidado ninguém, e depois ao anfitrião, que não esperava nem tolerava tamanha inobservância.
Aqui não é seu lugar, informei ao desavisado após ser acordado de supetão. Perdoe-me, mas aqui não podes ficar. Por favor, saia por onde entrou. Volte para o lugar de onde saiu, ou vá especular por outras bandas. Esta casa já tem dono e hóspedes, não está aberta a fuçadores. Não nos faça apelar para a violência. Temo por sua vida se meia volta não der. Apesar de a pecha de malfazejo comigo não combinar, se não sair agora, outra opção não deixarás, ultimei.
Incrivelmente, o furtivo amigo, após me fitar demoradamente, uns dois ou três segundos, como se nossa língua soubesse falar, ou, ao menos, interpretar, pôs-se pela porta da sala, em direção da rua, sua calda a arrastar. O anfitrião e eu, espantados que estávamos com a astúcia do invasor roedor, imediatamente, nos pusemos a indagar, de onde será que veio esta ratazana de inteligência superior?
Mas, enfim, após infame aventura, aliviados com a partida do amigo rato, voltamos a descansar, com a sensação de ter sido esta a noite mais inusitada e singular que vivemos naquele lar.
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