Hoje, quero falar de política de forma indireta, através da literatura brasileira, mais especificamente, através do conto de Lima Barreto, O homem que sabia javanês – se você ainda não o leu, aviso que darei alguns spoilers.

Eu pouco sei sobre literatura brasileira, confesso. Se quiser melhores referências, você pode buscar por Antônio Cândido, Alfredo Bosi, entre outros. Entretato, pelo pouco que já li, considero que Lima Barreto está entre os maiores autores de nossa literatura, ocupando, ali, o “Top Five” do ranking dos melhores escritores brasileiros, em minha opinião.

Afrodescendente como Machado de Assis, Barreto é um potente intérprete e crítico da sociedade brasileira. Suas obras, assim como as de Machado, são excelentes referências literárias para a construção de uma leitura sobre a formação e conformação do nosso país.

Em O Homem que sabia Javanês, Barreto narra a estória de Castelo, que conta suas peripécias e armações para ganhar a vida a seu amigo Castro, personagem que parece representar a classe média brasileira por sua convicção de que este é um país imbecil e burocrático. Apesar de estranhar a vida de Casleto, Castro admira suas aventuras.

Castelo é a configuração de um dos esteriótipos do brasileiro, que usa de sua esperteza para ganhar a vida, aproveitando-se das convenções sociais e das convicções de superioridade das classes dominantes, se passando por aquilo que não é para levar uma vida confortável e agradável tal como a da aristocracia brasileira.

É obvio que Casleto não pertencia àquela classe, bem por isso, tinha lá suas dificuldades para sobreviver. Como um migrante no Rio, morando de aluguel que mal conseguia pagar em dia, vivendo fugidio de pensão em pensão, descobre a demanda por um professor de javanês em um anúncio de jornal. Sem saída, toma a única alternativa que lhe resta: passar-se por um preceptor de javanês.

Esforça-se por aprender algumas letras e regras gramaticas do idioma e consegue uma entrevista com o contratante. É colocado a prova por este, que não consegue escapar à esperteza do farsante. O emprego de professor de javanês lhe rende não apenas o abono, mas um cargo na diplomacia brasileira, conseguido por indicação, que lhe aporta então não apenas o sustento, mas fama, notoriedade, publicações, menções, banquetes, viagens e respeito. Em outros termos, um novo status social.

Este parece ser o sonho de liberdade de alguns brasileiros: se assemelhar à aristocracia saltando para a parte de cima da pirâmide social, ainda que, para isso, seja necessário enganar e mentir. Esta personagem de Lima Barreto lembra muito a personagem de Manuel Antônio de Almeida, Leonardinho, do Memórias de um sargento de milícias. Juntas, elas fornecem pistas da configuração e do funcionamento de nossa sociedade.

Não é difícil encontrar por aí, em muitos espaços sociais, sobretudo os de poder, exemplos reais destas personagens: personalidades que não tem formação alguma serem conduzidas por apadrinhamento ou arrumarem meios escusos de ocupar os espaços políticos nas instituições brasileiras é o que não falta pelo Brasil afora.

Por outro lado, é notória a necessidade dos que figuram na parte de baixo da pirâmide de usar dos atributos que lhes são disponíveis para a sobrevivência, dentre eles, a esperteza, a persuasão, a dissimulação e até mesmo a mentira. Uma personagem marcante que também evidencia este dilema fruto da desigualdade social brasileira é a figura de João Grilo, do Auto da compadecida, obra do igualmente colossal escritor brasileiro Ariano Suassuna.

O Brasil, sem dúvidas, não é um país para cartesianos. Aqui, como disse Roberto Schwarz, as ideias estão fora do lugar. E as possíveis soluções para nossos problemas não são arranjos simples. Acho que escrevi essa resenha menos para emitir minha opinião sobre este conto e mais pelo entusiasmo de dizer: este é um país que foi construído sob a lógica da colonização, isto é, com objetivos exploratórios e, por consequência, de dominação; ler e compreender estes autores é um dos meios de se livrar dos grilhões que nos colocaram há séculos e de honrar suas memórias.

Caso você nunca tenha sido incentivado para estas leituras, lembre-se, não foi sem razão. É mais fácil dominar aqueles que conhecem pouco sobre si mesmos que aqueles que tem mais clareza de suas origens e heranças culturais. Não por acaso, os africanos escravizados no Brasil eram separados de seus iguais quando pisavam nessas terras pelos colonizadores: os escravizadores buscavam apagar suas origens e referências sociais para submetê-los e convertê-los a animais não humanos. Portanto, não deixe de ler os escritores brasileiros, sejam eles clássicos ou contemporâneos, sobretudo esses raros afrodescendentes.

Agradeço se acompanhou até aqui.

Clique aqui para baixa o conto: O homem que sabia javanês.

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Crédito da imagem de Lima Barreto: https://x.com/o_jurunense

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